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Coordenador da Lava Jato no Rio fala em ampliar ações contra corrupção na prefeitura: 'Questão de tempo'

 Coordenador da Lava Jato no Rio diz que investigações no estado têm "muito fôlego" (Foto: Henrique Coelho/G1)

Coordenador da Lava Jato no Rio diz que investigações no estado têm "muito fôlego" (Foto: Henrique Coelho/G1)

 
 

Em um ano e meio de Lava Jato no Rio, o Ministério Público Federal denunciou um esquema que, segundo os investigadores, atingiu vários setores do Governo do Estado. Em entrevista ao G1, o coordenador da operação, o procurador Eduardo El Hage, comentou as quase 20 ações e disse que a força-tarefa terá em 2018 mais um ano com "muito fôlego". Além das áreas da administração estadual, os esforços serão ampliados também a ações contra a corrupção na prefeitura.

O ex-secretário municipal de Obras, Alexandre Pinto, foi preso em agosto na Operação Rio 40 Graus, acusado de cobrar mais de R$ 7,5 milhões em propina. O esquema envolvia, segundo o MPF, cobrança de 1% de valores das obras da Transcarioca e da despoluição da Baía de Guanabara.

"É uma questão de tempo para que outras áreas venham a ser reveladas em outros setores. Haverá desdobramentos da operação Rio 40 graus", garante o procurador.

O MPF não adianta quais pastas da gestão do então prefeito Eduardo Paes estão sendo investigadas.

Nesta segunda-feira (11), Paes e o deputado federal Pedro Paulo Carvalho, ambos do PMDB, que foi secretário municipal na gestão de Paes, foram condenados pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) e estão inelegíveis por oito anos, acusados de "abuso de poder político-econômico" devido ao uso do "Plano Estratégico Visão Rio 500", contratado e custeado pelo município, como plano de governo na campanha eleitoral. Paes e Pedro Paulo alegam que o documento é da Prefeitura, é de domínio público e estava disponível também para os outros candidatos.

Em relação a Lava Jato, do secretariado de Sérgio Cabral, acusado de chefiar o esquema de propinas em contratos públicos e preso desde novembro, homens de confiança do ex-governador, como Wilson Carlos, Hudson Braga, Sérgio Côrtes e Régis Fichtner, já foram presos – Fichtner foi solto após liminar aceita no Tribunal Regional Federal da 2ª Região.

O nível da corrupção, segundo El Hage, deixou os procuradores "estarrecidos". "A Lava-Jato no Rio mostrou que a corrupção transbordou fronteiras e atingiu níveis que nem nós membros da força-tarefa imaginamos que poderia chegar, com a corrupção de dirigentes olímpicos com a compra de votos para as Olimpíadas", relembra.

Coordenador da Lava Jato no Rio diz que investigações no estado têm "muito fôlego" (Foto: Henrique Coelho/G1)

Números da Lava Jato no Rio (1ª instância)

  • 18 operações
  • 62 mandados de prisão preventiva
  • 13 mandados de prisão temporárias
  • 35 mandados de condução coercitiva
  • 225 mandados de busca e apreensão
  • Solicitação de reparação de danos: R$ 2,28 bilhões
  • Valores ressarcidos e pagos: R$ 451 milhões

 

'Erro' de Cabral

Para o procurador, muitas prisões e investigações poderiam não ter acontecido caso Cabral tivesse se candidatado e se elegido em 2014 para um cargo político – exceto governador, já que havia cumprido dois mandatos seguidos. Em março daquele ano, ele renunciou ao governo do Estado, após sete anos no cargo, mas não se candidatou ao Senado ou a deputado federal.

"Foi o maior erro dele. Se ele (Cabral) tivesse se candidatado e eleito em 2014, o esquema não teria sido descoberto", disse El Hage.

Congresso decisivo

El Hage afirma que, ao contrário de muitas manifestações equivocadas, 2018 não será o fim da Lava Jato, e sim de uma "batalha final", como citado pelo coordenador da Lava Jato no Paraná, Deltan Dallagnol. "averá muitas e variadas batalhas aqui no Estado do Rio de Janeiro."

De acordo com ele, o congresso a ser eleito em 2018 será fundamental para os rumos das investigações.

"Há uma preocupação com possíveis reveses no âmbito do legislativo, uma preocupação muito grande que haja retrocessos na legislação atual para impedir o avanço das investigações. O congresso será renovado, e dependendo do congresso que for eleito, pode ser uma grande derrota para o futuro do combate à corrupção no Brasil".

Foro privilegiado

A participação de membros do executivo e legislativo, muitos com foro privilegiado, atrapalhou em alguns momentos as investigações, segundo o procurador. uitas vezes, investigadores tinham que se desligar e passar suas informações para outras pessoas quando os casos eram encaminhados a outras instâncias.

"E é por isso que o fim do foro privilegiado no Brasil, ou até sua restrição seria algo extremamente benéfico para o combate à corrupção", pondera.

O Supremo Tribunal Federal aprovou por maioria a restrição do foro privilegiado, mas o ministro Dias Tófoli pediu vista do processo.

O ex-governador Sérgio Cabral deixa o Tribunal de Justiça Federal do Rio de Janeiro, após prestar depoimento em dezembro de 2017 (Foto: José Lucena/Futura Press/Estadão Conteúdo)

Expatriação e valores recuperados

Recentemente, o governo do Uruguai autorizou a extradição de Vinícius Claret, o Juca Bala, e de Claudio Fernando Barbosa, o Tony, doleiros envolvidos no esquema internacional de Sérgio Cabral. El Hage diz que já está em contato com a Polícia Federal para conseguir fazer com que ambos venham para o Brasil o mais rápido possível.

"É importante ressaltar que essa foi uma vitória muito grande para a Força-Tarefa. Pouquíssima gente podia acreditar que o Uruguai fosse atender um pedido nosso de extradição por lavagem de dinheiro, e tem se mostrado um país firme no combate à corrupção, e que o país não é um refúgio de bandidos do Colarinho Branco.

Relórgios, armas e dinheiro são encontrados pela força-tarefa da Lava Jato no Rio em operações em 2017 (Foto: Reprodução)

Apesar de ter feito a solicitação de reparação de danos no valor de R$ 2,3 bilhões no Rio, foram recuperados pouco mais de R$ 450 milhões no Estado. Isso pode mudar, no entanto, caso haja êxito nos pedidos de cooperação internacional que têm sido feitos com outros países.

"Já houve repatriação de mais de U$ 100 milhões que eram provenientes da organização criminosa chefiada pelo ex-governador Sérgio Cabral, e ainda estamos à procura de outros valores que foram desviados. Há uma grande parte deles que se encontra bloqueada pela justiça, e em breve com os julgamentos das ações em definitivo, esses valores serão de fato devolvidos aos cofres públicos", promete.

Fonte: https://g1.globo.com/rj